2012/02/29

Óscares

De tão óbvio e repetitivo até se torna menos chocante... mas não devia.
O autismo da famigerada Academy of Motion Picture Arts and Sciences (AMPAS) e dos seus principais prémios, os Óscares é por demais conhecido.
Ano após ano, as contradições vão-se acumulando, as pressões externas às artes vão ganhando espaço face à análise pura e dura da qualidade dos filmes produzidos e a justeza dos Óscares é cada vez mais dúbia.
Ainda não tive a oportunidade de ver todos os filmes deste ano mas tenho já uma espinha atravessada na garganta relativamente ao melhor actor, Ryan Gosling.
Já tive a oportunidade de ver Drive e The Ides of March e se o segundo se revela um filme profundamente inteligente já o primeiro entra logo para o meu top 20 de sempre, muito por culpa do actor principal, sem querer tirar mérito ao realizador.

Será possível ser parco em palavras e conseguir dizer mais numa postura, num olhar ou num simples gesto? Sim, e basta ver este filme para perceber isso.
A intensidade das emoções da personagem de Ryan Gosling é esmagadora e durante os 100 minutos de filme estamos à espera, quase que a suspirar, para que a ténue camada sobre a qual se escondem, expluda e o transformem no seu alter-ego vingativo, frio e calculista. Efectivamente é isso que acontece, daí o filme não defraudar expectativas, antes pelo contrário (:

Não merecerá ao menos uma nomeação?

Depois de em 2010 Leonardo Dicaprio nem ter sido nomeado pelos filmes Inception e Shutter Island para melhor actor porquê ainda ambicionar por nomeações corajosas?

2012/02/21

Pensamentos Euróticos


Ponto 1: Acredito no processo europeu. Acredito piamente que caminhamos cada vez mais para uma forma de governo que se assemelhe vagamente à do Estados Unidos da América. Mercado comum, moeda única, finanças comuns. Estão a ver onde quero chegar?

Ponto 2: Não acredito que este processo venha a conduzir a uma menor identificação dos povos para com o seu país de origem. Aliás, se me fosse permitido apostar, diria que quanto mais nos identificarmos como europeus mais orgulho e importância daremos à nossa origem particular e que será esta diversidade que nos distinguirá dos EUA.

Ponto 3: Este é um processo que demorará décadas, senão mesmo séculos até atingir o ponto de não retorno, após o qual poderemos falar realmente de um novo paradigma no espaço europeu.

Ponto 4: Nada disto será mais do que um sonho cruelmente interrompido por um vizinho barulhento a pôr música às 9h da manhã de um sábado se a crise que assedia a Europa não for lidada de uma forma diligente e eficiente.

Dito isto, faço algumas considerações que considero pertinentes.

O fenómeno da integração europeia é já uma realidade, principalmente entre as faixas etárias mais novas. Iniciativas como o programa Erasmus e Leonardo da Vinci foram o pontapé de saída desta grande caminhada. Dizer o contrário e acreditar que o processo já não está em marcha é a mesma linha de pensamento que os franceses tinham em relação à Linha de Maginot, que os protegeria de uma invasão alemã, descurando o facto que o Terceiro Reich podia (e realmente assim o fez) invadir a França, entrando pela porta da lateral que era a Bélgica. Só não vê quem não quer.

Estando esta (r)evolução em marcha há que pensar que as condicionantes são outras, os problemas são novos e, com certeza, as soluções serão diferentes. Todo este processo é, a meu ver, uma evolução para efectivamente podermos dizer que existe uma civilização europeia... algo nunca visto desde o tempo do Império Romano.
As nações estão num processo a longo prazo de "unificação". Mas, e os seus povos? Será que daqui a uns séculos terá acontecido um melting pot na Europa?
Não creio. Ao contrário dos EUA, onde o conceito tem origem, na Europa os cidadãos poderão sempre identificar-se com o seu local de origem, com todas as suas diferenças: cultura, hábitos sociais, gastronomia e claro a língua. A União Europeia tem 23 línguas oficiais para 27 países. Esta diferença fundamental nunca permitirá que nos tornemos nuns EUA. Acredito que a "unificação europeia" será muito mais ao nível da aceitação das outras culturas, mantendo sempre o orgulho na sua própria cultura de origem, garantindo um certo nível de "independência" de cada estado.
A Europa será um todo constituído por muitas partes pequenas, enquanto que os EUA foram muitas partes pequenas que se tornaram um todo.

Daqui por décadas poderemos ver os efeitos de todo este processo, mas não sem antes haver um renovação de gerações. Há processos que não podem ser acelerados e que têm o seu próprio ritmo. Este é sem dúvida um deles.

Finalmente, um comentário à situação actual, rebatendo para a imagem do início do post. E a opinião vigente é que sem presente não teremos futuro.
Se não forem feitas as opções certas agora as consequências serão imprevisíveis. Os problemas a resolver ultrapassam a escala nacional. Optar por deixar a Grécia cair fora do Euro até pode ser uma opção, mas se tal acontecer a Europa tem de estar lá a dar a mão e a ajudá-la a levantar-se para esta se reunir rapidamente aos seus irmãos.
Se não for assim, Portugal e talvez Espanha e Itália poderão seguir-se e aí que teremos? A Europa do Norte e a do Sul? Aliados ou inimigos?
A perspectiva de paz na Europa continuará a ser uma realidade ou tornar-se-á uma memória?